O rastreamento populacional do câncer de mama consiste na realização periódica de exames de imagem das mamas em determinado grupo de mulheres assintomáticas (não apresentam sintomas). Seu objetivo é detectar precocemente (em fase pre-clínica) e reduzir a mortalidade pela doença. O tratamento de pequenos tumores através do rastreamento possibilita ainda cirurgias menos traumáticas, menor necessidade de quimioterapia e menor custo social relacionado à perda de um indivíduo produtivo.
O primeiro estudo sobre rastreamento mamográfico foi realizado nos EUA ainda nos anos 60 e demonstrou uma redução de cerca de 30% na mortalidade por câncer de mama no grupo rastreado. Esse estudo motivou pesquisas populacionais semelhantes na Suécia, Escócia, Canadá e Reino Unido durante os anos 70, 80 e 90. A maioria destas pesquisas também mostrou redução na mortalidade por câncer de mama com a instituição do rastreamento mamográfico e motivou sociedades médicas e governos por todo mundo a recomendá-lo.
Análises contemporâneas dos dados levantados nesses estudos clássicos e de programas populacionais instituídos em diversos países, mostraram uma redução de 16% a 36% na mortalidade pelo câncer de mama nas mulheres convocadas para o rastreamento (inclui convocadas que não compareceram) e de 24% a 48% nas mulheres convocadas e que de fato realizaram a mamografia.
A idade de início do rastreamento na população feminina sempre foi polêmica entre os estudiosos e as diversas instituições de saúde – governamentais ou não – e até hoje há um debate acalorado sobre o tema. O fato é que apesar do câncer de mama ter menor prevalência dos 40-49 anos e da sensibilidade da mamografia ser menor nessa faixa etária (mamas mais densas dificultam a detecção de pequenos tumores à mamografia), há sim benefícios do rastreamento para a faixa etária dos 40-49 anos, porém em menor grau que a população com mais de 50 anos. A US Preventive Services Task Force mostrou que é necessário um maior número de mulheres convocadas para rastreamento para prevenir uma morte por câncer de mama dos 40-49 (1904 convocações para 1 morte evitada) que dos 50-59 anos (1339 convocações para 1 morte evitada) e entre os 60-69 anos (377 convocações para 1 morte evitada).
Outra polêmica frequente no rastreamento do câncer de mama é sobre qual o exame utilizar. Após décadas de pesquisas e acompanhamento de milhões de pacientes, já é lugar comum a afirmação que a mamografia é segura pois a dose de radiação utilizada é baixa e a vantagem de diminuição de mortalidade através da detecção precoce do câncer supera e muito o risco teórico da radiação agir como agente causal do câncer de mama. No fim dos anos 2000, um grande e importante estudo, avaliando o papel da ecografia de mama no rastreamento, verificou que este exame apesar de não superar a sensibilidade da mamografia, eleva a taxa de diagnóstico precoce de câncer de mama, particularmente em situações de alto risco familiar e mamas densas.
A Sociedade Brasileira de Mastologia em conjunto com o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, seguindo evidências médico-científicas e recomendações das principais sociedades médicas do mundo, indicam o rastreamento mamográfico anual de rotina para mulheres de baixo risco de câncer de mama dos 40 aos 74 anos , reservando a complementação com ecografia das mamas em casos de mamas radiologicamente densas. Acima de 75 anos pode ser indicado para casos pontuais, como em mulheres que tenham expectativa de vida maior que 7 anos.
As informações descritas neste texto não substituem a consulta com o mastologista ou qualquer outro especialista médico.
Fontes:
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